Psicólogo em Ambientes de Aprendizagem e Desenvolvimento Humano
Luiz Claudio Bido,
psicólogo e educador
Esse artigo procura
discutir aspectos relativos à atuação do Psicólogo em ambientes educativos. O
termo “ambiente educativo” amplia o espaço escolar, atingindo também empresas,
clubes, comunidades, plataformas virtuais de aprendizagem e um número
extremamente grande de novos espaços que se oferecem para o trabalho do
Psicólogo, como um mediador das relações educativas.
Inicia-se discutindo a
função do Psicólogo, nesses ambientes e em outros, bem como elege-se a clínica
como seu fazer essencial. Depois, analisa como a tentativa de restringir a
atuação clínica do Psicólogo está a serviço das relações de poder explicitadas
nos jogos de linguagem das estruturas sociais e dos caminhos da legitimação
ideológica. Finalmente, expõe como representações linguísticas menosprezam e
tentam desacreditar o trabalho do Psicólogo nos ambientes educativos, e como
essas podem ser consideradas expressões latentes de defesa da manutenção de
valores ultrapassados e de resistência à mudança e ao estabelecimento de
vínculos mais saudáveis entre aprendentes e ensinantes.
1
– O que faz um Psicólogo em ambiente educativo?
De maneira geral, não é
muito fácil definir a função do Psicólogo. Como o ouvir é sua principal
ferramenta de atuação, o trabalho do Psicólogo parece carecer de uma substância
laboral. O que faz um Psicólogo? Ouve? Atende? Orienta? Cura? Ensina?
Administra? No ambiente educativo, o Psicólogo pode ser chamado a atuar de
várias maneiras, nem todas adequadas à sua formação e ao seu conhecimento. Na
clínica, tomada aqui como espaço de atendimento terapêutico, o Psicólogo parece
encontrar sua vocação e perder as dúvidas sobre sua função. Mas fora da
clínica, o Psicólogo parece afundar-se numa crise de identidade que o faz
diminuir a importância do saber clínico e optar por fazer trabalhos alheios à
sua formação e vocação. Obviamente, o profissional da Psicologia pode atender,
orientar, ensinar ou administrar (pessoas, especialmente), mas o cerne de seu
conhecimento deve ser a ação de clinicar. Clinicar significa utilizar-se da
escuta clínica para interpretar o discurso do paciente e, dessa forma, ter
acesso aos conteúdos inconscientes não manifestos originalmente. É isso que
todo Psicólogo é preparado para fazer, e, através desse trabalho, ele contribui
para a construção de relações mais saudáveis, para o autoconhecimento e para o
desenvolvimento da alteridade.
Nesse sentido,
existiria um Psicólogo não clínico? A demanda fora da consultório tenta limitar
a atuação do Psicólogo com chavões do tipo "Escola não é lugar de
terapia...” “Empresa não é lugar de terapia...”, etc. Sendo assim, qual é o
“lugar” da terapia? Como esse lugar se definiria? E para quê contratar um
Psicólogo e depois impedi-lo de clinicar, de fazer terapia? Se o Psicólogo não
é clínico, se ele não faz terapia, ele é realmente Psicólogo? Como, então, um
Psicólogo pode se distinguir do Administrador de Pessoas, do Médico, do
Pedagogo, etc.?
Na minha opinião, o
Psicólogo deve fazer terapia o tempo todo, em todos os lugares, em todos os
contextos. Que tipo de terapia? A única que é própria do saber Psicológico: a
terapia da palavra. Nesse sentido, vale dizer que todo psicólogo é clínico –
sob o ponto de vista da Psicologia Clínica. Se não for assim, não exerce função
de Psicólogo.
Por que então os
lugares teimam em dizer: aqui não se faz terapia? Não tenho dúvidas sobre essa
resposta: é o medo do processo terapêutico, da revolução que esse processo pode
trazer, das relações de hipocrisia e desconhecimento que o processo terapêutico
pode desvelar, das relações de poder e submissão que a terapia questiona e
rompe. O Psicólogo que deseja realmente
ser psicólogo deve, portanto, libertar as pessoas das amarras inconscientes que
as impedem de serem mais felizes, mais autênticas, mais verdadeiras, mais
saudáveis em suas relações com a vida, consigo mesmas e com os outros. E deve
fazer isso, fundamentalmente, através das matérias primas à disposição do
trabalho clínico: palavras, gestos, expressões não verbais, sintomas, etc. E
essa missão não depende de lugar, especialidade, campo ou atuação.
2
– O Psicólogo e as relações de poder e legitimação
A escola barra a
clínica porque a clínica pode desvelar o jogo de linguagem por traz relações de
poder. O saber é uma metanarrativa legitimada por um jogo ideológico: não se
discute quem determinou o que deve ser ensinado, nem como, nem por quê, nem
para quem? A resposta a cada uma dessas dimensões depende da ideologia que se
quer estabelecer ou está estabelecida e serve a um projeto de poder, consciente
ou não.
Quem determina qual
expressão, de arte ou política, de cultura ou de afeto, pode ou não ocupar o
espaço educativo? Quem determina o espaço dos pais ou dos alunos na escola, sua
função, suas palavras e opiniões? Há determinantes estéticos que delimitam a
relação espaço x tempo tanto na arte como na convivência. A estética é uma
forma de compreender a ideologia: através da estética eu percebo como certas
relações de tempo e espaço são permitidas e encorajadas ou banidas e
consideradas impróprias. O que faz de um professor um bom professor? A
performance desejável é determinada também por uma rede de expectativas
ideológicas. O professor bom é aquele que sabe qual saber: o comunicativo, o
teológico, o tecnológico, o político? Qual saber a escola legitima?
A Clínica questiona os
processos de legitimação das metanarrativas e, dessa forma, põe às claras as
relações ideológicas que fundamentam o poder. Faz isso ao considerar – com
clareza e pertinência inabalável – o sofrimento do Sujeito em suas relações. A
Clínica considera o sofrimento do Professor, considera o sofrimento do Aluno,
considera o sofrimento dos pais. Ao dar a esses Sujeitos a palavra, acaba pondo
em cheque as estruturas causadoras de tais sofrimentos. Quando a escola – ou
qualquer outro espaço – tenta impedir que o Psicólogo atue clinicamente, o que
se consegue é perpetuar relações doentias. Seja por medo (afinal, temos medo de
ser saudáveis e felizes) ou por sádica perversão.
Dá para conceber o
estrago que pode ser feito na ordem ideológica e relacional de uma organização
o simples questionamento sobre o lugar do Real, do Imaginário e do Simbólico
nessa mesma organização? Isso é só um exemplo. Obviamente, um Psicólogo atento
poderá facilmente compreender se uma organização atua de modo Neurótico,
Perverso ou Psicótico. Isso pode ser sentido como um perigo. Por isso, o melhor
a fazer, é tentar enquadrar esse perigoso pensador numa função burocrática
dentro da organização, onde ele não cause problemas com sua mania de analisar
tudo o que vê (e, especialmente, o que não vê?).
É preciso, portanto,
que o Psicólogo questione sua função nesses espaços que se querem
“não-terapêuticos”. Se o Psicólogo não pode fazer terapia, ele pode fazer o
quê? E para que ele aceitaria um lugar que não é seu?
3
– Quatro maneiras de desacreditar o saber psicológico nos espaços educativos
Se o Psicólogo insiste
e cria um espaço para a Psicologia dentro da Escola, a resistência se manifesta
de várias maneiras, tentando colocar a Psicologia no seu devido lugar:
a)
A Psicologia não ensina nada. Depois, o
professor é que tem que se virar...
Edgar
Morin (1994) aponta como a interferência no circuito mente x cérebro x cultura
pode interferir no desenvolvimento humano. Assim, quando o Psicólogo interfere
“terapeuticamente” na cultura institucional, ele cria mentes diferenciadas,
capazes de produzir alterações nas variadas sinapses cerebrais. Ao facilitar a
adaptação de pessoas às novas condições culturais, tornando-as mais flexíveis,
plásticas e relacionais, o trabalho psicológico de caráter clínico pode gerar
mentes mais abertas, mais significantes e mais propensas à alteridade. Tudo
isso é a base para a formação de pessoas mais inteligentes. A terapia
psicológica pode, portanto, ensinar algo fundamental: a condição humana.
b)
A Psicologia é muito boazinha. Na vida
real, nadamos entre tubarões.
Novos
ambientes cooperativos exigem valores humanos mais complexos, como a
alteridade, a compreensão, a generosidade. Cada vez mais, as organizações
percebem que pessoas com grande conhecimento técnico, mas poucas habilidades
relacionais causam mais problemas e prejuízos do que soluções e lucro.
Dificilmente, as empresas querem ter sua imagem de atendimento ao cliente
associada à ganância ou ao instinto predador dos tubarões... Por isso, vale
dizer que o processo terapêutico proposto por um Psicólogo pode gerar lucros às
organizações, além de habilitar seus membros a nadarem em águas mais profundas
e desafiadoras.
c)
A Psicologia só defende os alunos. Como
ficam os professores?
Um
novo paradigma se avizinha: sai a
Psicologia da Aprendizagem (pelo menos aquela que só trata das dificuldades de
aprender) e entra a Psicologia das relações de Ensino x Aprendizagem. Alunos
inseridos em novos ambientes culturais aprendem de forma diferenciada: como os
professores podem dar conta disso? Ambientes tecnológicos de aprendizagem destacam
o saber compartilhado, não centralizado e não disponível a ser fonte de poder.
A Psicologia pode auxiliar os espaços educativos a compreender a distinção
entre saber x informação, além de facilitar a compreensão de como o professor
pode lidar com isso. A Psicologia pode ajudar a todos os protagonistas desses
novos tempos a se ouvirem e aprenderem juntos.
d)
A Psicologia não tem que aturar os
“inconvenientes” na sala de aula...
Judith
Butler (2011) discute o lugar do “queer” (o estranho, aquilo que não tem lugar)
nas relações sociais. Da mesma forma, a filosofia contemporânea tenta
compreender o lugar e a função de tudo aquilo que não é representável: o aluno
que não aprende, aquele que não tem lugar definido, o que não se comunica, o
inconveniente. Ao dar voz a esses novos protagonistas e ao jogar luz sobre o
incômodo que eles trazem às relações estabelecidas e engessadas, o Psicólogo
contribui para estender os limites e as funções das organizações.
Embora essas maneiras –
e outras – de fraudar a proposta terapêutica da Psicologia nos ambientes
educativos sejam constantes, elas só confirmam a importância do trabalho do
Psicólogo na Escola.
4
– As organizações refletem o mal estar da cultura contemporânea
Apesar de temerem o
saber psicológico, as instituições percebem que certas doenças estão cada vez
mais presentes no cotidiano organizacional: depressão, compulsões, narcisismo
exacerbado, falta de compromisso, imaturidade, etc. Entre as queixas
institucionais mais frequentes – especialmente representadas nas falas dos RH
das empresas e nas escolas – a falta de engajamento surge como um mistério a
ser desvendado.
Zizek (2009) atualiza o
conceito de trauma e o aplica a situações sociais de catástrofes, naturais,
políticas (guerras, extermínios, etc) ou culturais (estupro de jovens,
mutilação genital feminina, etc) e levanta a hipótese de que as populações que
passam por tais situações de catástrofe apresentam uma dificuldade de reação
muito difícil de compreender, pois acabam mergulhando num processo de
aceitação, de autoabandono, de falta de reação e de sujeição.
Talvez devêssemos
aplicar essa hipótese também às atuais gerações que mergulham num
incompreensível lamaçal de falta de vontade, de negação do engajamento, de
abandono ao vazio motivacional. Será que após tantos anos de abandono à
educação e às catástrofes sócio-políticas, não acabamos por criar uma geração
de apáticos, impermeáveis a qualquer estímulo motivacional?
O Psicólogo pode fazer
um trabalho de apoio a esse “trauma” social que atinge as organizações. Para
isso, porém, será preciso que o Psicólogo honre as particularidades de sua
função e de seu saber e não abra mão da postura e do agir clínico, seja onde
for o seu trabalho. Especialmente – e principalmente – se for na escola ou em
outro espaço educativo.
Referências Bibliográficas:
BUTLER, J. Genre trouble: feminism and subversion of
identity. Routledge. NY. USA. 2011
MORIN,
E. Sete saberes necessários à educação do futuro. Cortez. Sp. 2007
ZIZEK, S. Violence. Profile books ltd. UK. 2009
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